Passo horas do dia passeando de ônibus - horas de contemplação interminável - sento-me na janela sempre que posso, é bom ver tudo passando bem rápido – multi-imagens de diversas coisas em minha cabeça formando uma imagem só -, imagem caleidoscópica de luzes, sombras, pessoas e construções. O espectro psicodélico que vejo fora do ônibus me faz entrar em contato com uma outra instância da cidade, enxergo a rapidez do ritmo da nossa vida e a efemeridade das paisagens dentro de nós – tão logo que vejo a praça quinze, tão logo em que aquela pessoa se congela em meus olhos – eu me esqueço. Os detalhes são tão rápidos quanto o meu tempo de observação, logo aquela pessoa congelada se move e bate um vento – as árvores balançam e a paisagem já se transforma noutra. Uma nuvem cobre o sol. Outra paisagem se forma na praça quinze para outras pessoas que ali passarão e um novo sentir ali se estabelece, assim como é diferente a praia no inverno e no verão.
Essa imagem rápida que se fixa é lírica. Em toda ela, habita o existir da cidade: camadas de intricadas melancolias, alegrias, cansaços, correrias. Por isso é lindo passar de ônibus e ver a poesia que se faz também na calma do dia e não apenas nas sombras noturnas ou nos ventos crepusculares. Vemos a poesia como algo exclusivo dos momentos inspirados, sejam eles grandiosos ou depressivos. Mas ali naquele momento banal em que eu flagro a praça quinze, algo de muito relevante acontece: um clima calmo de poesia desabrocha, como deve ser assistir um avô balançar na cadeira de balanço ou como é ver uma avó cozinhar ou, ainda, como ler uma poesia-pílula. Um rápido lirismo.
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