sexta-feira, 20 de julho de 2012
Feliz dia do amigo!
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Esquete Literária I - O Nada e a Metafísica do Nada
- Você nunca tem nada a fazer?
- Não. Eu sempre tenho nada a fazer.
- Então o que você faz quando tem nada a fazer?
- Nada.
- É nada nada assim mesmo?
- É.
- Mas o que você sente quando faz nada?
- Eu não sinto nada.
- Ah, é sério isso? Alguma coisa você deve sentir...
- Tá, eu sinto tédio, mas isso é quase nada.
- Nenhuma outra coisa?
- Não, só tédio, que não serve de nada.
- Entendi. E como é fazer e sentir quase nada?
- É corajoso. Mas, de verdade, é o círculo vicioso do nada.
- Círculo vicioso do nada?
- Exatamente. É que fazer nada sempre vai te levar a fazer cada vez mais nada.
- Ah. Então vamos fazer alguma coisa!
- Alguma coisa que não seja nada porque nada eu já faço sempre.
- Mas nada não é somente nada?! Se é alguma coisa não é nada.
- Ah não. Nada vai precisar ser alguma coisa.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Nuvens.
Rápido lirismo.
Passo horas do dia passeando de ônibus - horas de contemplação interminável - sento-me na janela sempre que posso, é bom ver tudo passando bem rápido – multi-imagens de diversas coisas em minha cabeça formando uma imagem só -, imagem caleidoscópica de luzes, sombras, pessoas e construções. O espectro psicodélico que vejo fora do ônibus me faz entrar em contato com uma outra instância da cidade, enxergo a rapidez do ritmo da nossa vida e a efemeridade das paisagens dentro de nós – tão logo que vejo a praça quinze, tão logo em que aquela pessoa se congela em meus olhos – eu me esqueço. Os detalhes são tão rápidos quanto o meu tempo de observação, logo aquela pessoa congelada se move e bate um vento – as árvores balançam e a paisagem já se transforma noutra. Uma nuvem cobre o sol. Outra paisagem se forma na praça quinze para outras pessoas que ali passarão e um novo sentir ali se estabelece, assim como é diferente a praia no inverno e no verão.
Essa imagem rápida que se fixa é lírica. Em toda ela, habita o existir da cidade: camadas de intricadas melancolias, alegrias, cansaços, correrias. Por isso é lindo passar de ônibus e ver a poesia que se faz também na calma do dia e não apenas nas sombras noturnas ou nos ventos crepusculares. Vemos a poesia como algo exclusivo dos momentos inspirados, sejam eles grandiosos ou depressivos. Mas ali naquele momento banal em que eu flagro a praça quinze, algo de muito relevante acontece: um clima calmo de poesia desabrocha, como deve ser assistir um avô balançar na cadeira de balanço ou como é ver uma avó cozinhar ou, ainda, como ler uma poesia-pílula. Um rápido lirismo.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Segredo meu.
Parei de lhe mandar flores, caso percebeste. É porque agora enviar-me-ei a ti como carne crua, pois quero ver se me dominas como dizes. Quero provar da tua capacidade que tu tanto dizes. Não quero mais somente: vou. Jogar-me a teu corpo como um suicida e deixar-me levar. Não te surpreendas com minha sinceridade, é que estou impossível. Esta será minha última carta; da próxima vez eu estarei defronte a ti olhando-te como o leão impossível olha a caça antes de caçá-la: vou caçar-te.
E chegarei. Não importa o tempo. Só o inesperado te espera. Eu serei tua surpresa aguardada como um presente de Natal que você já adivinhava, porém espera ansiosamente. Com uma única diferença: eu sou um presente útil.
Não me espere. Eu já estou selvagem e primitivo o suficiente. Dar-lhe-ei estes mesmos sentimentos mais humanos do que a roupa que te oprime. Deixa-me libertar-te. Preciso te amar mais do que a intensidade do tempo. Preciso amar-te como nunca farei. Antes de arrombar a tua porta, tornar-me-ei impossível, impassível. Estarei com meu melhor perfume, mas o que eu realmente guardo-lhe só eu sei: é segredo meu.
Mas não me espere. Ainda não escolhi a roupa que usarei. Acabaram-se as minhas promessas românticas banhadas ao pôr-do-sol. Deixe o sol para depois, quero provar-te em plena escuridão: quero conhecer-te em tuas quentes intimidades. Faz um verão escaldante e eu não consigo mais me suportar. Preciso de tua frigidez. Afogar-me-ei dentro de tuas infinitas possibilidades, mas o que eu realmente farei é segredo meu.
Mostrar-lhe-ei minha cultura, a educação que minha mãe me deu. Mas o que eu farei continua sendo segredo meu. As minhas entranhas ficam entre eu e mim e mais ninguém. Lembra-te quando me levara de súbito para as ondas da praia? Então, mostrar-lhe-ei o refluxo da vida. Vai, não me espere. Não me aguarde. Não me anseie. O melhor eu guardo para mim: finalmente vou te mostrar como as ondas voltam para o mar. Mas o que eu farei é segredo meu.
Poesia ainda sem nome.
terça-feira, 13 de março de 2012
Duas poesias de amor.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Dois homossexuais passam.
Não houve um lado para que nos pudéssemos nos identificar, o comunismo dizia que éramos um vício do capitalismo, um sinal da decadência da sociedade burguesa e o capitalismo dizia – e esse argumento ainda persiste forte atualmente – que éramos antinaturais, que vamos contra o estado de natureza. Sozinhos, desabrigados politicamente, religiosamente, civicamente e moralmente, andávamos cautelosos nessa civilização construída com uma noção tão pequena do que é ser humano. Houve avanços, entretanto, ainda temos que lidar com a marginalidade, com o desprezo, com a sociedade canibal e consumista do capitalismo.
Eu, homossexual, ainda ando taciturno ainda que o dia brilhe lá fora. Demoro a decidir se pego a mão do meu amigo ou namorado, penso se me encontro forte o suficiente para encarar os olhares policiais dos transeuntes, tortos e repressores, se me encontro inabalável o suficiente para ouvir um xingamento, e em última instância - mas não impossível, encarar o soco. Há várias maneiras de fazer com que duas mãos se afastem, eu as conheço, faço os cálculos e meço: eu tenho uma humanidade maior do que a existente, logo, eu pego essa mão e ando.
Os olhares se entortam logo que essas mãos se unem, algumas bocas se contêm, outras se espantam, então surge um vácuo no meio da rua cheia: dois homossexuais de mãos dadas abrem espaço. Homens e mulheres espantados, aquela senhora ali com o crucifixo pensando em rezar pelo fim dos tempos – mal sabe ela que já se encontra atropelada pelo tempo: dois homossexuais passam e se amam. A civilização de cinco mil anos não entende nada, o frenesi atômico se forma com a presença alienígena, o pescoço da senhora apavorada sua, nossa senhora de aparecida, dois homossexuais se amam! Ouve-se o silêncio de pedreiros, balconistas, professores, alquimistas e pastores e vereadores...
Logo os dois homossexuais viram a esquina e o mundo, naquela rua, volta ao seu tamanho original e pequeno. Mas o pavor causado pela presença vanguardista de dois homossexuais que se amavam ficará guardado na imatura mentalidade de quem os viu passar.