sexta-feira, 20 de julho de 2012

Feliz dia do amigo!


Eu não tenho uma só metade e sim múltiplas metades.  Amigos que estão dentro da minha personalidade, da minha memória, do meu passado, presente e futuro.  Pessoas tão diferentes entre si, mas que para mim formam uma harmonia coerente a qual me identifico, me alimento, me farto e me delicio. Só com vocês a alegria se torna fácil, o amparo me soa amigo e toda a sorte de tristezas encontra um fim. Gente que não se adivinha tão fácil, é necessário encontrá-las, conhecê-las, amá-las! E permitir ser conhecido. Vocês são importantes por tudo que me proporcionam. Feliz dia do amigo, minhas múltiplas metades! 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Esquete Literária I - O Nada e a Metafísica do Nada

Segunda: nada. Terça: nada. Quarta: nada. Quinta: nada. Sexta: boemia ou nada. Sábado: boemia ou nada. Domingo: nada.

- Você nunca tem nada a fazer?
- Não. Eu sempre tenho nada a fazer.
- Então o que você faz quando tem nada a fazer?
- Nada.
- É nada nada assim mesmo?
- É.
- Mas o que você sente quando faz nada?
- Eu não sinto nada.
- Ah, é sério isso? Alguma coisa você deve sentir...
- Tá, eu sinto tédio, mas isso é quase nada.
- Nenhuma outra coisa?
- Não, só tédio, que não serve de nada.
- Entendi. E como é fazer e sentir quase nada?
- É corajoso. Mas, de verdade, é o círculo vicioso do nada.
- Círculo vicioso do nada?
- Exatamente. É que fazer nada sempre vai te levar a fazer cada vez mais nada.
- Ah. Então vamos fazer alguma coisa!
- Alguma coisa que não seja nada porque nada eu já faço sempre.
- Mas nada não é somente nada?! Se é alguma coisa não é nada.
- Ah não. Nada vai precisar ser alguma coisa.


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Nuvens.

São as nuvens,
Espessas, extensas,
Nubladas, translúcidas,
Escuras, misteriosas,
- Aveludadas.

São cinzas jogadas,
No céu, ao vento,
São cinzas,
De todas minhas mágoas,
São choros, são lágrimas,
São dores, clamores de ajuda,
- Vulcanizadas.

É a tristeza que assola,
É o mundo de outrora,
É o luto, o silêncio,
É o grito não gritado,
É o discurso não dito,
São as palavras não ditas
- Evaporadas.

São desejos e promessas não sublimadas.
O engodo de nuvens ardendo no peito,
Nuvens atemporais,
- Naufragadas.

Rápido lirismo.

Passo horas do dia passeando de ônibus - horas de contemplação interminável - sento-me na janela sempre que posso, é bom ver tudo passando bem rápido – multi-imagens de diversas coisas em minha cabeça formando uma imagem só -, imagem caleidoscópica de luzes, sombras, pessoas e construções. O espectro psicodélico que vejo fora do ônibus me faz entrar em contato com uma outra instância da cidade, enxergo a rapidez do ritmo da nossa vida e a efemeridade das paisagens dentro de nós – tão logo que vejo a praça quinze, tão logo em que aquela pessoa se congela em meus olhos – eu me esqueço. Os detalhes são tão rápidos quanto o meu tempo de observação, logo aquela pessoa congelada se move e bate um vento – as árvores balançam e a paisagem já se transforma noutra. Uma nuvem cobre o sol. Outra paisagem se forma na praça quinze para outras pessoas que ali passarão e um novo sentir ali se estabelece, assim como é diferente a praia no inverno e no verão.

Essa imagem rápida que se fixa é lírica. Em toda ela, habita o existir da cidade: camadas de intricadas melancolias, alegrias, cansaços, correrias. Por isso é lindo passar de ônibus e ver a poesia que se faz também na calma do dia e não apenas nas sombras noturnas ou nos ventos crepusculares. Vemos a poesia como algo exclusivo dos momentos inspirados, sejam eles grandiosos ou depressivos. Mas ali naquele momento banal em que eu flagro a praça quinze, algo de muito relevante acontece: um clima calmo de poesia desabrocha, como deve ser assistir um avô balançar na cadeira de balanço ou como é ver uma avó cozinhar ou, ainda, como ler uma poesia-pílula. Um rápido lirismo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Segredo meu.

Não quero te escrever mais. Quero poupar-me. Mas: não poupar-me de te escrever. Só vou dar nova forma às palavras. Irei reinventar-me para então te escrever e reinventar-te. Mostrar que meu colo é quente e deixar de pedir teus beijos. Deixarei de te pedir que me responda e escrever-me-ei todo nu à sua frente: para ver se tu te entregas à minha luxúria.

Parei de lhe mandar flores, caso percebeste. É porque agora enviar-me-ei a ti como carne crua, pois quero ver se me dominas como dizes. Quero provar da tua capacidade que tu tanto dizes. Não quero mais somente: vou. Jogar-me a teu corpo como um suicida e deixar-me levar. Não te surpreendas com minha sinceridade, é que estou impossível. Esta será minha última carta; da próxima vez eu estarei defronte a ti olhando-te como o leão impossível olha a caça antes de caçá-la: vou caçar-te.

E chegarei. Não importa o tempo. Só o inesperado te espera. Eu serei tua surpresa aguardada como um presente de Natal que você já adivinhava, porém espera ansiosamente. Com uma única diferença: eu sou um presente útil.

Não me espere. Eu já estou selvagem e primitivo o suficiente. Dar-lhe-ei estes mesmos sentimentos mais humanos do que a roupa que te oprime. Deixa-me libertar-te. Preciso te amar mais do que a intensidade do tempo. Preciso amar-te como nunca farei. Antes de arrombar a tua porta, tornar-me-ei impossível, impassível. Estarei com meu melhor perfume, mas o que eu realmente guardo-lhe só eu sei: é segredo meu.

Mas não me espere. Ainda não escolhi a roupa que usarei. Acabaram-se as minhas promessas românticas banhadas ao pôr-do-sol. Deixe o sol para depois, quero provar-te em plena escuridão: quero conhecer-te em tuas quentes intimidades. Faz um verão escaldante e eu não consigo mais me suportar. Preciso de tua frigidez. Afogar-me-ei dentro de tuas infinitas possibilidades, mas o que eu realmente farei é segredo meu.

Mostrar-lhe-ei minha cultura, a educação que minha mãe me deu. Mas o que eu farei continua sendo segredo meu. As minhas entranhas ficam entre eu e mim e mais ninguém. Lembra-te quando me levara de súbito para as ondas da praia? Então, mostrar-lhe-ei o refluxo da vida. Vai, não me espere. Não me aguarde. Não me anseie. O melhor eu guardo para mim: finalmente vou te mostrar como as ondas voltam para o mar. Mas o que eu farei é segredo meu.

Repostagem. (26/10/2008)

Poesia ainda sem nome.

Se me perco nos caminhos da vida.
Me acho no nascer do sol.
Se me perco nas ondas do mar.
Me acho em qualquer anzol.

Se me encontro nesta poesia.
Me perco dentre as entrelinhas.
Se me encontro num sorriso sincero.
Me perco no frio do inverno.

Se me encontro nas nuvens do céu.
Me levo a lugares mil.
Se me acho numa folha de papel.
Me desenho um rabisco infantil.

Se me vejo a amar por aí.
Me direi que não há solidão.
Se me vejo a rolar pelo chão.
Me direi que há vida aqui:

Dentro do meu coração.

terça-feira, 13 de março de 2012

Duas poesias de amor.

1.

Se pudesse haver sol,
e não haver manhã - então,
poderia haver amor
e não haver coração.

2.

Para estar te amando,
não te falaria do céu azul desse verão,
nem do céu estrelado, nem do mar,
porque são imagens muito doces.
Não te falaria também do ontem, do hoje
e do amanhã, que é muito amargo.

Para estar te amando,
eu te falaria do sorvete que gostaria de tomar nesse verão intenso,
da coca-cola no quiosque da praia, porque o dia está quente.
E te falaria de como as pessoas ficam engraçadas quando olham ao longe
e quando devaneiam dentro de si mesmas.

Falaria de como o cotidiano é incrível quando compartilhado.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Dois homossexuais passam.

Não houve um lado para que nos pudéssemos nos identificar, o comunismo dizia que éramos um vício do capitalismo, um sinal da decadência da sociedade burguesa e o capitalismo dizia – e esse argumento ainda persiste forte atualmente – que éramos antinaturais, que vamos contra o estado de natureza. Sozinhos, desabrigados politicamente, religiosamente, civicamente e moralmente, andávamos cautelosos nessa civilização construída com uma noção tão pequena do que é ser humano. Houve avanços, entretanto, ainda temos que lidar com a marginalidade, com o desprezo, com a sociedade canibal e consumista do capitalismo.

Eu, homossexual, ainda ando taciturno ainda que o dia brilhe lá fora. Demoro a decidir se pego a mão do meu amigo ou namorado, penso se me encontro forte o suficiente para encarar os olhares policiais dos transeuntes, tortos e repressores, se me encontro inabalável o suficiente para ouvir um xingamento, e em última instância - mas não impossível, encarar o soco. Há várias maneiras de fazer com que duas mãos se afastem, eu as conheço, faço os cálculos e meço: eu tenho uma humanidade maior do que a existente, logo, eu pego essa mão e ando.

Os olhares se entortam logo que essas mãos se unem, algumas bocas se contêm, outras se espantam, então surge um vácuo no meio da rua cheia: dois homossexuais de mãos dadas abrem espaço. Homens e mulheres espantados, aquela senhora ali com o crucifixo pensando em rezar pelo fim dos tempos – mal sabe ela que já se encontra atropelada pelo tempo: dois homossexuais passam e se amam. A civilização de cinco mil anos não entende nada, o frenesi atômico se forma com a presença alienígena, o pescoço da senhora apavorada sua, nossa senhora de aparecida, dois homossexuais se amam! Ouve-se o silêncio de pedreiros, balconistas, professores, alquimistas e pastores e vereadores...

Logo os dois homossexuais viram a esquina e o mundo, naquela rua, volta ao seu tamanho original e pequeno. Mas o pavor causado pela presença vanguardista de dois homossexuais que se amavam ficará guardado na imatura mentalidade de quem os viu passar.