Outro dia, ao passar por um acidente entre um ônibus e um carro, via-se o carro retorcido de cabeça para baixo, o aço bruto comprimido no chão como se fosse palha, as ambulâncias já piscavam em volta, a vidraça da frente do ônibus completamente quebrada e o clima perturbador daquele ambiente que nos cercava. As vítimas estavam perturbadas, uma mulher ferida no braço que estava sentada na calçada desesperadamente ligava para alguém e a multidão de transeuntes, permanecia inerte. Havia sangue misturado a gasolina - aquela cena toda me perturbava extremamente - os feridos sentados na calçada em prantos. Ao passar por ali, exatamente naquela hora, a vida me pungiu com vida. Ela me feriu no peito com aquilo que ela - em sua substância - é: essa perturbação lancinante. Na hora, não esbocei sequer reação, fiquei sem feições diante do acidente porque eu também me tornara um ferido-sentado-na-calçada-desesperadamente. Meu sangue havia se misturado a gasolina e por alguns instantes eu me tornei irreconhecível, ali, à minha frente, a vida ria nua e satírica de todos nós, como ambígua, gritante, desesperadora, incurável, que ela é.
Era quase meio-dia e o sol tornava visível cada centímetro daquele acidente. E eu ali, parado no trânsito, com uma estaca da vida atravessada no peito. O que eu poderia fazer, senão ficar inerte? O que eu poderia fazer na minha medíocre condição de alguém? Nada. A verdade é esta e faz parte do riso da vida: nada eu poderia ter feito. Cheguei depois e ainda que chegasse antes. Não possuo o controle remoto dos acontecimentos. Aquele momento era de conteúdo crítico, não era apenas um acidente, fazia parte do ciclo da vida de venturas e de gritos.
E a mulher, sentada na calçada com o braço ferido, nunca mais deve ter sido a mesma, eu não consegui me manter o mesmo. Entre o desespero total e uma certa calma desesperada, a vida nos havia furado a pele e bebido o nosso sangue, de modo que agora, ela com o telefone celular no ouvido e eu preso no trânsito, estávamos igualmente vampirizados.
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