sábado, 9 de julho de 2011

With the one I love para Adriana Coelho

Lembra-se de quando vencemos aquele dois mil e nove? Você nem imaginava a merda em que eu estava preso – era tanta bosta jorrando do esgoto, e tão rapidamente, que eu já vivia esse fluxo pantanoso como um fio voluptuoso de perfume francês descendo o pescoço. Eu não podia dizer nada, eu não podia dizer tudo. Fadado a ficar quieto, meu silêncio crônico me levou às últimas consequências: falar alguma coisa que pudesse me salvar. Eu te disse muita coisa, mas agora quero que você imagine como teria sido se eu lhe tivesse dito tudo.

Vencemos aquele colégio que já não era mais o paraíso que encontramos, vencemos o horror de ter uma vida chata, entediante, óbvia. Lutamos contra a correnteza para salvar uma vida que poderia ter parado ali, subdesenvolvida. Vencemos a nós mesmos que chegamos ao fim daquele ano tão cansados, mas tão esperançosos (obrigado por ter-me devolvido a esperança). Com você e com o entendimento único que você tem de mim – você é eu – eu pude sair daquele rio de silêncios de merdas de dias tristes de emoções rasgadas de felicidades distantes de tristezas reais de melancolias desesperadas de olhar vazio. Meu olhar vazio era o que mais me entristecia naquele tempo – sintoma do cansaço e do sofrimento que digeria calado.

Te escolhi pra dizer alguma coisa, ainda estávamos brigados. Dentro da minha impotência emocional, dentro do que restava do que agora é seu Chico, fui buscar apressadamente algum fôlego, alguma esperança que me fizesse sair daquele ponto e me transformar. Fiz tudo isso e olha só agora onde estamos. Redescobri a sua força e a minha força, criamos a nossa força, lindo. Tenho a sua e a nossa força comigo. Não abandono. Não me esqueço.

Dois mil e dez foi perfeito como prometemos um ao outro. Para dois mil e onze, eu já não sabia o que te dizer. Minha intuição continua forte, porém está mais fraca. Chego ao meio desse ano cansado, consumido, invadido. A minha mediunidade está enfraquecida, é como se a visão da alma estivesse embaçada – e está. Me falta clareza nos olhos e isso me deixa repleto de dúvidas, de incertezas, de ansiedades, de desesperos.

Eu sinto que talvez entre naquela fossa terrível de novo, mas eu não quero. Lutei contigo para ser feliz pra sempre. Pra ser tranquilo. Ainda que parte dessa fossa venha, porque isso é inevitável, ao contrário de dois mil e nove, dessa vez eu vou lhe dizer tudo. Começo por aqui:

Quero lhe fazer um pedido. Aqui, nesse texto, estou te dizendo alguma coisa da mesma forma que eu fiz em dois mil e nove, leia com atenção. Olhe por mim, estou sentindo uma nuvem negra surgir parecida com aquela que você me retirou.