
Está ótimo, então se tudo der errado, se tudo der certo, eu sei aonde te encontro, viu? Aquele quiosque fluorescente de tequila a três reais, onde o cara que nos serve conhece a nossa cara, as nossas roupas, o nosso humor. Talvez, se ele for de pensamento arriscado, já até sabe que a gente nunca tem três reais exatos para dar, sempre quatro ou cinco, e quando é cinco a gente sempre pede a segunda dose, porque duas doses é cinco. Já sei que eu vou comprar um cigarro a varejo, marlboro se tiver, compro dois ou três, deixo um no bolso.
Antevejo nossas conversas banais, tão importantes. Você me diz sobre aquele garoto que acaba te largar e aquela garota que você está largando, eu rio, nunca pude dizer nada sobre alguém me largando, nunca abanei lenço branco, todos aqueles que passaram por mim, se foram na espessa bruma dos acontecimentos, levados pelo dia que amanhece. Já vejo a gente na fila bebendo alguma outra coisa, um elemento X, que a gente pegou emprestado de alguém que conhecemos ali na hora.
Da última vez, fui sozinho no nosso quiosque, encontrei as mesmas pessoas, a mesma fluorescência, noto, entretanto, duas coisas diferentes. Aquele homem baixinho, magrelo, que nos serve, sentiu o ímpeto de me perguntar por vocês, ele deve ter sentido certamente, a minha solidão de estar ali sozinho. Não me perguntou, mas eu me respondi, disse a mim mesmo que um encontro é foz de mil outros desencontros, depois disso sorri, ele veio sorrindo e trouxe uma surpresa que ainda não te contei: o copo em que ele serviu a dose da tequila foi maior que o de costume. Ali, vi que a vida recompensa a ausência de outrem com a presença de outros. A tua falta gerou o excesso na tequila.
Na hora de voltar pra casa, sempre me deu um aperto muito grande, pois voltar de manhã é um anticlímax. A gente, quieto, com sono ou com ressaca, aquele clima fúnebre da manhã enterrando a noite – não gosto. Gostaria de nunca perder aquele ardor da tequila na garganta das noites passadas, alguma coisa precisa arder para eu acreditar que estou sendo feliz, gostaria nunca de perder a embriaguez, assim eu não precisaria mais justificar os meus atos; estar embriagado é a sublimação mais alta da racionalidade e uma expressão muito pura dos nossos instintos, por isso a gente na Lapa, viu?
Nenhum comentário:
Postar um comentário